Actualizado em 8/5/2013 e 9/9/2016
Toda a informação que aqui tinha publicado encontra-se agora desenvolvida de forma sistemática no meu livro
Cardosos e Castilhos Albicastrenses – à volta dos
Palácios
cujo lançamento ocorreu em duas sessões no Solar dos Cardosos em Castelo Branco.
O livro pode ser adquirido no Kiosk Vidal em Castelo Branco, Livraria Ferin e Livraria Barata, em Lisboa.
Para ver informação mais pormenorizada com fotos consultar:
A primeira sessão, presidida pelo Sr. Arquitecto José Afonso, foi em 27/4/2013 e destinou-se a familiares e alguns amigos, tendo esgotado os 81 lugares sentados na sala.
A segunda sessão ocorreu em 2/5/2013, foi presidida pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Comendador Joaquim Morão e teve a presença de amigos e convidados da Autarquia, que quase encheram o salão.
Nesta sessão o Autor apresentou o livro através dum discurso que leu, do qual se transcreve a parte que interessa:
Apresentação do livro
O meu livro,
CARDOSOS E
CASTILHOS ALBICASTRENSES - À VOLTA DOS PALÁCIOS contém
três tipos de conteúdo:
A primeira
parte trata da história dos palácios e das famílias a eles ligados – o 1º
palácio dos Cardosos, que é este onde estamos, o 2º palácio dos Cardosos,
contíguo a este e o solar dos Tudela de Castilho, na Rua Nova, sendo também
referido o palácio dos Barões de Castelo Novo, na antiga Rua da Ferradura, hoje
Rua João Carlos Abrunhosa.
A 2ª parte
trata da apresentação da Pinacoteca que instalei neste 1º palácio, motivo da
sua aquisição e restauro.
Finalmente,
há os anexos, que complementam ambas as partes anteriores, contendo a
genealogia dos Castilhos posteriormente a 1820 e uma recolha de orações de
carácter popular.
Depois de
ler a primeira versão do texto, o Prof. Doutor João Mendes Rosa, professor na
Universidade de Salamanca, escreveu um prefácio muito bom, que vale a pena ler,
pela análise que faz do livro e por todo o saber ali expresso.
Está na
origem da minha pesquisa a pedra de granito, com um brasão de armas, por cima
da porta da entrada desta casa, que adquiri em 2009.
Andava eu
nesse ano à procura de um espaço para pendurar os meus quadros, quando me foi
proposta a compra desta casa, que “tinha uma escadaria muito bonita no átrio”,
segundo o vendedor imobiliário.
A primeira
vez que vim aqui tive receio ao entrar, mas depois de ver o vendedor a avançar
pelas ruínas resolvi segui-lo com cautela. A situação era desoladora, mas
decidi comprar a dita ruína, porque tinha muito espaço e me pareceu ser
possível a recuperação.
O Doutor
Leonel Azevedo disse-me depois, quando o conheci, que tinha morado aqui um
Cardoso que era fidalgo, dado que o brasão é de Cardoso, não sabia exactamente
quem, nem conhecia o edifício por dentro. Eu nunca me interessara por heráldica
nem tinha procurado informação pormenorizada sobre fidalgos. Para se construir
um edifício como este era necessário ter posses razoáveis. Por isso resolvi
descobrir quem tinha morado aqui e estudar o seu modo de vida.
Primeiro
houve que determinar se o brasão era coevo deste edifício, o que garantiria que
a casa tinha sido solar de fidalgos. De facto, o brasão podia muito bem ter sido
trazido doutro local para aqui. Viria eu a concluir que não, por análise da
parede da fachada depois de retirado o reboco de cal, que estava deteriorado.
Com a ajuda do especialista na zona histórica, Sr. Arquitecto Mendes Ricardo,
que subiu ao andaime para verificar como estava colocada a pedra de armas,
verificou-se que se trata dum grande bloco de granito inserido na parede sem
qualquer vestígio de se tratar dum remendo.
Dado que
nada se sabia da história do edifício, pensei que a poderia descobrir se
estudasse a vida das pessoas que nele viveram. Assim, a primeira coisa que fiz
foi determinar quem tinham sido essas pessoas. Nas inscrições do registo predial do edifício constava
uma de 1907, que era a mais antiga, onde se dizia que pertencia a Pedro de
Ordaz Caldeira Lucas, tal como o palácio que pega com este, do lado sul.
Pesquisei esse nome na internet, entrei num site de genealogia, soube que ele
nascera em 29.03.1877 e continuando a pesquisa de filho para pai nesse mesmo
sítio, cheguei a Paulo Rodrigues Cardoso (nascido cerca de 1560), filho de Isabel
Cardoso e neto de um Álvaro Cardoso.
Porém, isto
não era a resposta ao problema, era apenas o seu enunciado.
Então, a
partir daqui seguiu-se uma fascinante aventura de pesquisa no campo da
história, genealogia e heráldica, suas disciplinas auxiliares, utilizando na
pesquisa o método de investigação das ciências sociais.
.
A Parte II tem um carácter de divulgação,
apresenta o palácio com a pinacoteca instalada e, como já se percebeu, se este objectivo
não tivesse existido, a Parte I não teria sido escrita, porque eu não teria
comprado este imóvel. São duas matérias diferentes mas interligadas.
Em primeiro
lugar, na Parte I, trata-se do que apurei sobre o que designo por “primeiro
palácio dos Cardosos”, que é aquele onde estamos, como já se disse. Em resumo,
forneço elementos que levam a concluir que este palácio foi construído por
Paulo Rodrigues Cardoso, entre 1590 (tinha ele 30 anos) e 1609 (data da carta
de brasão de armas de seu primo direito Heitor Cardoso, em que se refere que os
Cardosos albicastrenses eram, até então, fidalgos de ilustre linhagem mas sem
solar conhecido, isto é, sem casa com um brasão).
Esta 1ª
Parte respeita à investigação que fiz depois de comprar o edifício, contém
pesquisa de carácter científico. O que aí está escrito foi documentado com
Registos Paroquiais de Stª Maria do Castelo (desta vila de então e depois
cidade), desde o séc. XVI ao séc. XIX, e das igrejas de Alcains e Escalos de
Baixo, assim como Chancelarias de D. Afonso V, D. Manuel I, D. João III e da
Ordem de Cristo, as Ordenações Afonsinas e as Manuelinas, cartas de Brasão de
Armas, para além dos livros clássicos de genealogia e outros que constam na
bibliografia. Outra fonte importante foram os Róis de Confessados da Sé de
Castelo Branco e as escrituras notariais desta cidade, desde o séc. XVIII ao
XIX e até um documento inédito que me foi facultado no Fundão, relativo ao
inventário dos bens confiscados em 1911 aos Jesuítas, na sua residência nesta
cidade. Grande parte da documentação foi consultada na TT e outra no ADCB. A 1ª Parte contém muita pesquisa histórica
inédita.
Como se
demonstra no livro, o 2º Palácio dos Cardosos, contíguo a este, foi construído
no séc. XVIII pelo último Pedro Cardoso Frazão, que viveu de 07.02.1702 a
26.01.1772 e era tetraneto de Paulo Rodrigues Cardoso. Foi mais tarde herdado
pelo seu neto José Caldeira de Ordaz Queirós, que viria a ser 2º barão de
Castelo Novo (baptizado em
05.01.1775) depois de casar cerca de
1807 com a prima direita, Angélica de Menezes d’Ordaz e Queiroz de Valadares,
filha natural legitimada do 1º Barão de Castelo Novo, que falecera em
24.01.1804. Como se vê, esse palácio
nunca poderá ser designado como tendo sido dos barões de Castelo Novo, pois só
pertenceu ao 2º Barão, que o herdara antes de ter o título e que foi morar para
o palácio na Rua da Ferradura.
O palácio da Rua João Carlos Abrunhosa, sim, foi o dos
barões de Castelo Novo. Tem um corpo que deve ter sido construído pelo pai do
1º Barão ou por este mesmo, e outro que foi construído pelo 2º Barão, já que
tem a data de 1863 gravada no muro do portão.
Quanto à casa dos Tudela de Castilho, na Rua Nova, demonstrou-se
depois de uma exaustiva e longa pesquisa, que era o edifício onde funcionou a velha
Escola do Castelo, demolido cerca de 1960, para se construir ali, no centro dos
quintais, a escola que agora lá está. À falta de fotografias do edifício,
fez-se uma reconstrução fotográfica, que mostra como era a casa. Essa casa foi
vendida em 1815 por Fernando Tudela de Castilho (o último desta linhagem, que morreu
nas Donas, Fundão, sem descendência em 1820). Foi herdeiro de seu tio José
Tudela de Castilho, solteiro, sem descendentes, que faleceu em 1806. Mais tarde
foi deixada aos Jesuítas por testamento de Pedro de Pina Carvalho Freire Falcão
que faleceu em 20 de Março de 1878. Foi confiscada aos Jesuítas em 1910 após a
implantação da República.
A seguir ao
que se apurou sobre os palácios apresenta-se nessa 1ª Parte o que fiquei a
saber sobre as famílias Cardoso e Castilho albicastrenses. Os Castilhos
entraram nesta história porque a filha Isabel, de Paulo Rodrigues Cardoso,
casou com Fernão Gomes de Castilho, avô de Fernão Tudela de Castilho, Fidalgo
da Casa Real, juiz de fora e depois Desembargador da Relação do Porto. Esta foi
uma família proeminente em Castelo Branco, principalmente nos séculos XVI e
XVII, por serem Fidalgos da Casa Real e, além disso, gente estudiosa, titulares
do cargo de Juiz da Alfândega de Castelo Branco e juízes de fora.
Sobre os
Cardosos fez-se uma difícil e longa pesquisa histórica, tendo-se concluído que
Álvaro Cardoso, que segundo o genealogista Achioly da Fonseca foi o primeiro
que se estabeleceu em Castelo Branco, estimando-se que nasceu cerca de 1485.
Em 1510 recebeu de D. Manuel I o privilégio de “recebedor
do dinheiro e coisas que pertencem às obras dos muros e fortalezas dessa vila,
com o mantimento, enquanto as obras lavrarem, de, pelo menos, quatro oficiais e
dez servidores e 20 reais por dia”. Depois foi nomeado vedor das obras reais,
cargo confirmado mais tarde por D. João III. Teve um filho de nome igual, por
isso lhe chamo Álvaro Cardoso Sénior. Foi o bisavô de Paulo Rodrigues Cardoso e
não tinha solar conhecido, assim como também o não teve o seu filho Júnior.
Pela investigação
histórica que fizemos, deduzimos que ele era filho do Dr. Pero Lopes Cardoso ou
Pedro Lopes Cardoso, que foi Ouvidor com poderes de alçada na comarca e
Mestrado de Cristo, em Castelo
Branco, com sentenças proferidas em 1500 e 1502 nessa vila de então. Foi
nomeado corregedor da comarca da Beira em 1506, depois o mesmo cargo na comarca Entre Tejo e Guadiana e em 1511 recebeu do
rei a mercê do ofício de desembargador da Casa da Suplicação, que funcionava
junto à Corte. Provavelmente, no início de carreira esteve na Comarca Entre Douro
e Minho, o que explicará que Álvaro Cardoso Sénior tenha nascido em Mirandela, como
foi dito por Achioly da Fonseca.
Andava a
pesquisar os Cardosos quando tive de me dirigir ao Coronel Manuel Martinho
Rolão, autor dum livro em 3 volumes sobre as famílias da Beira Baixa, para
obter alguns elementos sobre aqueles fidalgos. Foi então que ele se interessou
por pesquisar os Castilhos, tendo demonstrado, por documentos obtidos, a
ligação entre as duas famílias, pelo casamento já referido de Isabel Cardoso
Frazão.
Então, aprofundei também a genealogia desta família, que
se apresenta no livro. O primeiro Castilho que veio para Castelo Branco era um
fidalgo que se chamava João de Castilho, nasceu cerca de 1500 na Biscaia e
casou com D. Joana da Costa, de família nobre e que herdara o cargo de escrivão
da Correição de Castelo Branco. Este cargo, que não podia ser exercido por
mulheres, foi desempenhado pelo marido. Dele descenderam os Tudelas de
Castilho, dos quais descendem, por sua vez, todos os Castilhos que encontrámos
na Beira Baixa.
Termino com os
meus agradecimentos, renovados, ao Sr. Presidente Joaquim Morão e a todos os
presentes, que me honraram com a sua participação nesta cerimónia.
Bem-haja a
todos.